Não se enganem pelo título, não é obra de nenhum chileno amargurado. A frase acima foi escrita por Robinho no vestiário da seleção após a partida, em um quadro usado por Dunga na preleção. Durante a semana, uma epidemia de otimismo exacerbado contaminou a população e a seleção chilena. Pensaram que o fato de jogarem em casa, contra um adversário que vinha sendo pressionado pela mídia e pela própria torcida, seria motivo suficiente para uma vitória tranquila. Valdívia até insinuou que o empate seria um "mau negócio". Mau negócio na realidade, foi ter de encarar uma equipe totalmente a fim de mostrar futebol e voltar a recuperar a moral, apagada desde a Copa de 2006.
No início até pensei que o Brasil teria um pouco mais de trabalho. O Chile começou o jogo a mill, enquanto os brasileiros ainda se mostravam perdidos, normal para um começo de jogo. Alexis Sanchez pedalando na lateral do campo, e mais tarde, Mati Fernandez cruzando de letra para a área, quase me fizeram acreditar em uma seleção chilena mais ousada, incisiva. Talvez eles se aquietariam, se Robinho não tivese desperdiçado a primeira grande chance do jogo em uma tabela fantástica com Luís Fabiano. Talvez a história do jogo fosse diferente, se Suazo não mandasse a bola para a arquibancada em oportunidade claríssima de gol na cobrança de um escanteio, poucos minutos depois. Talvez...

O jogo estava bom, muito movimentado. Eis que surge uma falta, de longe. Ronaldinho prontamente se posiciona, e chama os zagueiros para a área. Na cobrança, bola na cabeça de Luís Fabiano, que com um belo toque desviou para o canto esquerdo do gol, sem chances para Bravo. Logo aos 20 minutos a seleção já marcava o primeiro gol. O responsável pela inauguração do placar foi, na minha opinião e de muitos outros, o melhor em campo. O Fabuloso, como é conhecido, não é habilidoso nem um grande craque, tanto é que perdeu duas chances claríssimas de gol, que felizmente não comprometeram no resultado. Mesmo assim, vem sendo desde sua volta à seleção, um dos maiores destaques do time. Faz seus gols na base da trombada, cabeçadas precisas e tem ás vezes alguns lampejos de gênio, e dessa forma vai dando uma enorme contribuição para que o Brasil volte ao topo do mundo. Tem o espírito que conquistou o torcedor, por seu jeito de brigar pela bola em todos os lances e não desistir até que o árbitro encerre a partida, e ontem, participou de todos os gols brasileiros. É um bom exemplo de como um jogador deve aproveitar uma oportunidade de vestir e honrar a camisa da seleção brasileira.
Até aí o Brasil mostrava um futebol de nível aceitável. Além do camisa 9, Robinho fez uma boa partida. Poderia ter sido muito melhor, se o ex-santista resolvesse treinar mais chutes a gol. A primeira grande chance foi dele, recebendo passe magistral de calcanhar de Luís Fabiano, driblando o último homem e chutando porcamente, de perna esquerda em cima do goleiro. O que eu acho dele, é que o cara só joga quando quer. Na Copa América, colocou na cabeça que era "o cara" da seleção, e ele correspondeu. Viu que era dele a responsabilidade e detonou, foi artilheiro e eleito o melhor da competição. Ontem, a "mala" estava pesada demais. Talvez pela sua milionária transferência nos últimos dias, motivo que o faz ser assunto no mundo todo até agora. Mas esteve bem na medida do possível. Fez até um gol (!) no finalzinho do primeiro tempo, e vai render mais contra a Bolívia, tenho certeza. Após os 45 minutos iniciais, o Brasil vencia por um 2x0 que deixava aos poucos os chilenos mais, digamos, humildes.

Para o segundo tempo, Marcelo Bielsa mexeu no time e o mandou para o ataque, terminando seu estoque de alterações, já que Valdívia entrou no primeiro tempo (e até agora tento entender se ele começou no banco por questão tática, ou por pura represália á farra da Copa América). Com mais atacantes, a seleção chilena foi pra frente, e numa dessas investidas, Kléber faz uma falta comum, e recebe injustamente o segundo cartão amarelo, deixando o campo mais cedo. Por conta da expulsão inesperada, o técnico Dunga colocou o lateral Juan, sacando Ronaldinho Gaúcho. Ele saiu de cara feia, parecia realmente chateado com a alteração. Mas estava mal mesmo, não jogou nada. Em sua grande chance no primeiro tempo, cobrou o penalti sofrido por Diego daquele seu velho jeito manjado, no canto direito do goleiro, que fez grande defesa. O Chile, que não tinha nada a ver com Kléber ou Ronaldinho, aproveitou-se da vantagem numérica pressionando um pouco, mas sem sucesso e objetividade. Além de não aproveitarem a chance, o time perdeu Valdívia, também expulso pelo árbitro (que terá sua grandiosa atuação comentada a seguir) em um lance que merecia apenas cartão amarelo, na minha opinião. Usando da mesma quantidade de jogadores novamente, o Brasil foi capaz de criar mais algumas chances, com o trio Diego, Robinho e Luís Fabiano. Eis que em uma dessas investidas, o Fabuloso domina uma bola na área, e na base da raça, enfrenta o zagueiro e sai na cara do gol pra fazer Brasil 3x0.
Depois disso, os chilenos deixavam o estádio aos poucos. O time que durante a semana via a vitória muito próxima, vivia um pesadelo dentro de campo. A bola era tocava com desânimo, o Chile a partir daí não produziu mais nada. Com a entrada de Jô e Elano mais tarde, quase sai um quarto gol, na jogada dos dois jogadores do City. Em um passe de Elano, Jõ bateu forte e rasteiro, no canto esquerdo de Bravo, que se esticou e conseguiu evitar um vexame ainda maior. Fim de jogo e a torcida brasileira entoava um "Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor" entusiasmada. É fato de que esse resultado foi puramente ilusório. Não pela partida feita pela seleção, que tanto em conjunto como individualmente, foi muito boa. Só que antes do apito inicial, foi criada uma atmosfera tão forte de que o Chile poderia vencer o Brasil, que muitos ignoravam o fato de, nos três últimos jogos entre as equipes, o Brasil marcou 13 gols, contra 1 dos chilenos. Ou mesmo de que a atual campeã sul-americana é a seleção canarinho. Enfim, não poderia haver rodada melhor para sair da "crise" do que essa. Dois adversários fracos, e com jogadores focados no resultado e no bom futebol.
Bola cheia: Luís Fabiano - roubou e a cena, e com dois gols e muita raça foi inegavelmente o melhor em campo.
Bola murcha: Carlos Torres... O juizão paraguaio estava totalmente perdido na pardida. Inverteu faltas, laterais e até um cartão amarelo, mostrado incorretamente para Luisão, por uma falta de Kléber. Só acertou no penalti do Brasil. Errou ao não expulsar Diego e Kléber em duas entradas muito desleais. No segundo tempo, errou ao mostrar o segundo cartão amarelo para o lateral brasileiro (feito para comepensar a não expulsão no primeiro tempo) e ao expulsar Valdivia, para compensar o erro cometido com o brasileiro. Difícil de entender? Pois é, o próprio árbitro deve estar tentando compreender as lambanças de sua arbitragem até agora.
Kléber - não por ter sido expulso. Apenas por continuar em uma péssima fase, vivida desde o ano passado. O santista errou passes, fez uma falta duríssima e desnecessária logo no começo do jogo e se mostrou desnorteado em campo. Sua convocação foi um espanto para todos, visto a falta de futebol exibida por ele. Para coroar sua trágica (e possivelmente a última) convocação para seleção, não jogará contra a Bolívia na próxima quarta.
Abaixo, confira a ficha do jogo:

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